Naja do Cerrado

Sexta-feira, Fevereiro 23, 2007



"Esta paisagem é um manuscrito com a frase mais bela cortada..."
Fernando Pessoa


Há você, o outro e um terceiro - a entidade formada pelo casal, os dois ou o que duas pessoas fazem juntas, independente do título que dão ao que estão fazendo. E há também os novos lugares, que são inaugurados pelo outro em você. E os novos nomes pelo qual você é chamado. É essa a grande surpresa de um novo amor? Descobrir um "você mesmo" novinho em folha? É o brilho que você vê nos olhos de quem está te desvendando? Já viu como os recém-apaixonados adoram colocar apelidos em seu objeto de paixão? É uma maneira de dizer que aquela descoberta é sua. Ser o Colombo de alguém e o desbravar inteiro.

Ah, como é boa esta vida a navegar.

E a delícia de descobrir as pequenices? O Diabo está nos detalhes, dizem, e como não haveria de estar "aquele que divide", senão no melhor lugar? Desisti de algumas promessas naquele olhar do menino para suas mãos, querendo ver se tudo estava em ordem com as unhas, no aviso que deu à sua mãe de que chegaria tarde, naquela lágrima que deixou escorrer, quando tudo parecia calmo, enfim.

Acho que é por isso que eu amo tanto o cinema, porque é a arte que, por sua grandeza, e pela proporção gigantesca da projeção das imagens, presta a mais justa homenagem à beleza do ser humano, expondo milimetricamente os atores e o gestual de cada um em sua criação de uma persona e suas emoções.

Sobre detalhes e gestos também diz a filosofia budista que "nos pequenos gestos está a grande ética". Sim, sim, a grandeza de deixar limpo o que o próximo vai usar, a mesa pra quem mora na mesma casa que você, o estranho que vai usar o mesmo banheiro no shopping, o planeta para as próximas gerações, as mínimas e pequenas coisas que fazemos e que existem para nos fazerem lembrar que não estamos sozinhos e que não somos eternos. Temos a importância das coisas que realizamos apenas.

Em uma cidade grande como São Paulo pode-se sim praticar a filosofia budista - há alguns anos atrás, eu escrevi em algum lugar que o budismo é impraticável na selvagem vida ocidental. Mas estava enganada, jovem como era. Aqui, volta e meia eu tenho, por estar tão cercada do humano e em tão grandes proporções, a real dimensão da minha importância no mundo, que é praticamente nula, ou tão pequenamente significante como a de qualquer outra pessoa, qualquer outro ser. Esse prazer de sentir-se ninguém todos os dias é iguaria quando queremos nos sentir também uma nova pessoa. E uma nova pessoa pode ser sempre alguém melhor, mais gentil, ao menos, para começar.

P.S.: E descobri mais um prazer absoluto neste carnaval: ler Fernando Pessoa à beira mar, ouvindo o álbum Livro, de Caetano, com o background da conversa miúda de amigos novos e antigos. Experimente, mas não espere um carnaval.

...

E daqui pra frente estarei postando em outro lugar: http://www.last.fm/user/janassis
Um lugar mais divertido!

Beijos!


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